Gastão Debreix A redenção pela arte por Bruno Sisdelli - GuilhermeLaurente/DebreixDigital GitHub Wiki
Um desavisado que fosse colocado no ateliê provavelmente pensaria se tratar só de uma oficina de marcenaria ou algo semelhante. Espalhado por um grande galpão, o maquinário industrial está ali para servir aos propósitos da arte. Objetos de madeira se distribuem pelos quatro cantos do lugar. Ao lado dos latões de tinta, vidros contendo materiais diversos, de telha a cinzas de fogueira. Não tem nada a ver com o cenário clichê quem vem à cabeça quando se ouve a palavra “ateliê”. Mas parece que qualquer lugar e qualquer coisa pode virar arte ao passar pelas mãos de Gastão Debreix.
“A arte é redentora”, ele afirma com convicção. “Ela me salvou. É ela que me mantém vivo, além dos meus filhos”. Hoje com cinquenta e três anos, Gastão começou a formar sua mente de artista ainda criança, na época em que os pais eram alunos do extinto curso de Artes Industriais na Universidade de Ribeirão Preto. “A minha casa era um câmpus”, conta. “Eles faziam trabalhos de cerâmica, gravura, entalhe… Então eu tive contato com aqueles trabalhos de escola, que estavam sempre lá em casa”.
Aluno do pai na Escola Industrial de Pirajuí, Gastão era jovem quando conheceu os processos industriais e geométricos que mais tarde incorporaria à sua arte. Foi por meio do pai também que ele teve o primeiro contato com a arte moderna. Dono de uma oficina no fundo de casa, o marceneiro costumava receber encomendas de molduras para reproduções de obras de artistas como Picasso e Léger destacadas de calendários. “Eu admirava aquela coisa, mas ao mesmo tempo eu ficava constrangido”, Gastão relembra. “Por que as pessoas colocam uma reprodução? Por que não um trabalho original, um trabalho único?” No vídeo abaixo, ele fala de suas influências.
Aos 27 anos, Gastão ingressou no curso de Educação Artística da Unesp de Bauru. Mais ou menos na mesma época, começou a trabalhar como agente de segurança em uma penitenciária de Pirajuí. E foi com os presidiários que ele aprendeu aquela que seria a principal técnica empregada em sua arte: a serigrafia. O método consiste na impressão sobre uma superfície por meio do uso de uma tela matriz preparada com uma emulsão sensível à luz. A tinta é vazada através da matriz para a superfície a ser pintada (clique aqui para entender melhor o processo). Para Gastão, que confessa sempre ter tido “uma preguiça imensa de desenhar”, o encanto com a técnica foi imediato e permanente. “Você tem a possibilidade de fazer a tiragem que você quiser, o tamanho que você quiser, a cor que você quiser, no substrato que você quiser”, ele diz.
“A serigrafia é um dos processos de reprodução de imagem que mais se adaptaram à modernidade”, o artista avalia. “Hoje ela está nos automóveis, nos azulejos, no doce, na bolacha. Está em tudo. E casou comigo”. No vídeo abaixo, ele fala sobre a técnica.
Também foi no presídio que o artista reencontrou uma atividade que costumava praticar na infância e que acabou ficando esquecida na vida adulta: os presos tinham o hábito de criar produtos artesanais dobrando e trançando maços de cigarro. Gastão resolveu transportar a técnica para sua arte, utilizando jornais e revistas ao invés dos maços. Batizado de “trama”, o trabalho é comumente aliado à serigrafia e as redes são impressas em telas com diferentes cores, criando inconfundíveis Gastão Debreix.
Ele também aplica a ideia da trama a outros objetos além das revistas e dos jornais, como latas de tinta e caixas de ervilha. O uso de materiais e ferramentas que originalmente não foram feitos para fins artísticos é, por sinal, uma de suas muitas marcas registradas. “Será que dá para fazer alguma coisa com isso? Eu sempre tenho essa pergunta que fica me remoendo”, ele explica. As tintas, por exemplo, nem sempre são compradas prontas: Gastão gosta de fabricar suas próprias cores usando matérias-primas que coleta em suas andanças. Telhas e tijolos moídos, carvão e cinzas de fogueira são alguns exemplos.
Apesar de se dizer um mau leitor, Gastão também pode ser descrito como um poeta. Mas não do tipo que coloca versos comportados, um embaixo do outro. Dono de uma mania de querer “enquadrar o mundo esteticamente”, ele constrói imagens usando letras, palavras e frases, criando o que se conhece por poesia visual.
Esse tipo de arte compõe grande parte de sua obra, e vem da admiração que ele tem pela estética das letras. “Apesar de nunca ter sido um bom leitor, eu gosto da letra”, afirma. “Ela tem um desenho que foi feito pelo homem, e que o homem conseguiu desmembrar em vários tipos. Isso é fantástico. Quando eu olho um jornal eu procuro a estética das letras, o desenho das letras”. No próximo vídeo o artista fala sobre sua poesia.
Multifacetada como é, a arte de Gastão Debreix já teve seu valor reconhecido dentro e fora do país. Os lugares onde ele já expôs incluem Hungria, Coreia do Sul e Alemanha. No último dia 13, ele apresentou a mostra “Diálogos” no espaço A Casa Branca, em São Paulo – foi a primeira vez em que seu trabalho esteve exposto sozinho em um evento na capital paulista, sem estar acompanhado por obras de outros artistas.
Além da criação artística em si, ele se dedica a ensinar o que sabe a outras pessoas. É professor da Divisão de Ensino às Artes da prefeitura de Bauru e do curso de Design do IESB, além de dar aulas de marchetaria em sua casa. O trabalho de lecionar provavelmente tem a ver com o fato de Gastão acreditar que a arte é elemento essencial no aprendizado das pessoas. “[A arte] tinha que ser mais bombardeada na cabeça do ser humano, para o ser humano ser mais sensível, mais cordial”, diz. “Ela pode salvar vidas. Mal acho que não faz. Que nem canja de galinha”.
Para quem quiser conhecer a obra de Gastão Debreix mais a fundo, uma boa dica é o livro Razão e sensibilidade, que reúne vários trabalhos do artista e está disponível na internet em versão digitalizada.
Bruno Sisdelli - 2013
fonte:
https://curtabauru.wordpress.com/2013/07/16/gastao-debreix-a-redencao-pela-arte/