Fronteiraz 18 Lucio Agra O futuro da poesia digital - GuilhermeLaurente/DebreixDigital GitHub Wiki
" É muito difícil você manter o tom elevado, no sentido melhor possível dessa expressão, quando você está na beira de uma nova forma de expressão. É mais difícil ainda, porque ela aparentemente te facilita, mas na verdade ela te cria múltiplas complicações e é preciso então que você também tenha uma criação a altura dessa nova forma de expressão. Isso é um diálogo evidentemente, esse 'a altura' que estou falando é retórico aqui, quero dizer, isso impulsiona a linguagem, a linguagem impulsiona sua criação. Esse é um processo que você tem que ir empurrando móvel, e as vezes móveis pesados, que seria muito mais prático, mais fácil dizer assim: 'não, deixa esse aí porque vai ser muito pesado para empurrar'. Mas você tem que empurrar para poder ir para outro lugar. Então, eu tenho a impressão que as melhores experiências nesse terreno estão numa fronteira em que você explora o limite da linguagem, inclusive fora só de um suporte, ou seja, trabalhando com múltiplos suportes. Era aquilo que em 66 o Dick Higgins chamava de poética inter-meios. O Dick Higgins foi um dos poetas do grupo Fluxus, aliás um grupo de performance eles faziam happening na época nem chamava performance que era um grupo formado por uma boa quantidade de poetas. E o Dick Higgins formulou esse manifesto intermidiático, intermeios ou intermídia em 66 chamando a atenção para o fato de que a arte que existirão no futuro e a poesia que possa existir no futuro por consequência não vai ser veiculada só em um meio. Você vai precisar de múltiplos meios de emissão disso, veja que hoje mesmo intérpretes cantores fazem o uso de diferentes recursos um músico faz uso de diferentes recursos Outro dia eu vi um show muito bonito da Lia Lordelo lá na Bahia que tá trabalhando com os textos do Torquato Neto com os poemas e canções que Torquato fez, aquela canções que Décio dizia que eram textos tão fracos quando lidos e tão fortes quando cantados, com isso queria dizer: a potência do texto estava na sua performance ela. Você tinha um músico lá que tava fazendo baixo na banda que tocava fagote, como isso é possível? Porque ele ligou esse fagote em uma série de equipamentos eletrônicos, uma série de pedais que produziu efeitos muito interessante. Então ninguém hoje em dia que fazer alguma coisa interessante pode produzir algo dentro de um único meio você tem que fazer uma coisa que combina vídeo que combina eletrônica que combina teatro que combina performance combina tudo todas as linguagens. E isto não é brincadeira de fazer, mesmo porque, eu queria deixar isso como um cometário final, não é pela dissolução das fronteiras entre as linguagens que você consegue fazer algo intermídia, é justamente pela afirmação das peculiaridades e do choque das diferenças que você consegue fazer algo intermídia, tem uma grande lorota que sempre se fala aí 'ah, não tem mais fronteiras entre as linguagens, então isso pode ser isso pode ser aquilo...' nada disso, ninguém nunca conseguiu fazer algo diluindo tudo numa pasta homogênea só faz afirmando as diferenças. Então é por isso que eu falo sempre de uma especificidade da performance num mundo sem especificidade, é óbvio que eu tô falando de um outro tipo de especificidade, não é mais aquele sentido que tinha no modernismo nas coisas que tinham a sua literariedade sua artisticidade a sua pictorialidade, propriedades específicas, isso é muito metafísico mas o fato é que o que eu faço de um determinado modo não é a mesma coisa em outro modo. O que é interessante é quando eu consigo acoplar essas diferentes possibilidades e com isso produzir algo que na miríade de coisas que eu produzo na confusão de linguagens que eu produzo, se produz ao mesmo tempo uma intensidade e uma harmonia Isso é que é grande arte se não, não é. Só se pode fazer isso na medida em que você reproduza esse estalar das diferenças entre as coisas.