Décio Pignatari: as antenas da poesia concreta - GuilhermeLaurente/DebreixDigital GitHub Wiki
Um dos responsáveis pela articulação internacional do movimento, poeta foi pioneiro na difusão da semiótica no Brasil e fez da tradução um exercício de criação
Em mais de uma ocasião, Décio Pignatari, nascido em Jundiaí em 1927 e morto no domingo passado, disse que o artista brasileiro quase sempre decai depois dos 40 anos de idade (apontava uma das raras exceções em Alfredo Volpi). Certamente, a regra não caberia a Pignatari, que, aos 81, lançou o livro “Bili com limão verde na mão” (Cosac Naify), cuja compreensão carece de grande esforço, já que altíssimo repertório foi mobilizado para concebê-lo e realizá-lo, e levará anos até que seja fruído e amado mesmo pelos aficionados das façanhas pignatarianas. Era uma história infantil para adultos, dizia.
Alguns de seus projetos, parece, ficaram por realizar. Uma prosa de fôlego, que envolveria Osasco, onde cresceu, uma narrativa longa da qual o conto “Frasca” e o romance “Panteros“ seriam apenas ensaios. Peças de teatro e traduções de autores que lhe eram caros, mas que, em outros momentos, estiveram excluídos de seus afazeres pelo rigor do projeto concretista.
Conheci Décio Pignatari lá por meados dos anos 1970, na Pós-Graduação em Teoria Literária da PUC-SP (que, em 1978, passaria a se chamar Comunicação e Semiótica), a propósito da revista “Artéria”. O poeta conversou comigo sobre o projeto e disse que, quando de fato as coisas estivessem encaminhadas, colaboraria com algo inédito, o que me deixou entusiasmado. Um dos textos que destinou à “Artéria 1”, e que mais tarde recusou incorporar à sua poesia completa (“Poesia pois é poesia”, lançada pela Ateliê Editorial em 2004), foi republicado em 2006 em um número especial do “Suplemento Minas Gerais”. Era intitulado “Ai!cai”: “Signos que ficam, faço!/ porém, signo dos signos,/ não fico — passo”.
Era impressionante a humildade (palavra que ele detestava, pois era muito cara à intelectualidade mediana brasileira) que perpassava seu comportamento quando falava da própria poesia. Parecia não ter plena consciência de sua grandeza, já reconhecida internacionalmente àquela época. Diferentemente das ocasiões em que defendia ideias e, portanto, posições.
Projetos gráficos e capas de livros
Décio Pignatari conheceu os irmãos Campos, Augusto e Haroldo, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, e daí nasceu uma grande amizade, com realizações que os três protagonizavam, muito embora fossem individualidades com temperamentos tão distintos. Assim, aconteceu um trabalho em colaboração que deu muitos e importantes frutos, sendo o principal a poesia concreta, tendência poética nascida no Brasil e na Alemanha e que se tornou, de fato, internacional.
Esse nascimento deve muito a Pignatari, que esteve na Europa, de meados de 1954 a meados de 1956, lá travando conhecimento com gente como John Cage (que andava por Paris), Pierre Boulez e Eugen Gomringer, que desenvolvia na Alemanha uma pesquisa poética semelhante à dos poetas paulistas que constituíram o Grupo Noigandres a partir de 1952. Atirado, arrojado, polemista e com faro afinado para as coisas da criação artística, Décio Pignatari sempre chegou ao melhor do melhor.
Poeta desde a adolescência, dominou precocemente a tecnologia do verso, o qual passou, com Pignatari, por uma evolução que permitiu obras-primas como “Eupoema” e “Noção de pátria”. Ao mesmo tempo, foi desenvolvendo um aguçado senso gráfico que ao longo de sua vida rendeu, além de algumas peças importantes para o acervo mundial da poesia, projetos gráficos e capas de livros que entraram para a história do design brasileiro, como a capa e quarta-capa de “Um e dois”, de José Lino Grünewald, e a das traduções dos “Cantares”, de Ezra Pound. Por falar em design, esteve ligado às origens da Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI), no Rio, onde lecionou Teoria da Comunicação e da Informação.
Foi pioneiro na divulgação dos conceitos da semiótica peirceana no Brasil, ele que já possuía um “modo semiótico” de ver as coisas e o mundo — fez análises semióticas de obras literárias que se tornaram modelos de procedimento consequente na abordagem de textos artísticos. Em um percurso admirável, exerceu a crítica (o discernimento) a vida toda, atividade que veio a propósito da poesia que praticava, mas com uma altura que poucos atingiram em nosso país, tanto na análise de obras como na elaboração de manifestos/teorias, passando pelo campo da polêmica, no qual era imbatível — um Oswald de Andrade da Era Atômica.
A sua poesia, que já era grande antes do advento da poesia concreta, foi ficando cada vez maior e melhor: “Um movimento”, que se originou de um texto de Haroldo de Campos, “Terra”, “(Beba) coca-cola”, “Life”, “Organismo”. Observando tais poemas, pode-se compreender, como colocaram alguns outros poetas, que a peça-poema é resultante de um processo dialético no qual entram em jogo sensibilidade e racionalidade. O olho (tipo)gráfico de Décio Pignatari é algo espantoso, como espantosos foram os cometimentos tipográficos de e. e. cummings, desestruturando o verso.
Na mais legítima tradição sterniano-machadiana, Pignatari chegou a propor uma prosa em que a dimensão gráfica era elemento de ordem estrutural, donde resultaram obras-primas do conto, como “Noosfera”, “Teleros” e “O que Chopin”, além do romance “Panteros“ e outras peças mais. “Errâncias”, obra em que comenta fotografias, é o melhor exemplo de uma metalinguagem que compactua com o Belo. Chegou a propor um teatro hologrâmico e publicou, em volume autônomo, a peça “Céu de lona”.
Fez traduções históricas, como as de François Villon e Mallarmé (aqui, uma “tridução”, em parceria com os irmãos Campos). Tomou a tradução de poesia sempre como um exercício de (re)criação. Pensador das comunicações que também foi, fez a transposição para o português de textos teóricos, como o livro capital de Marshall McLuhan, “Understanding media” — publicado no Brasil com o título “Os meios de comunicação como extensões do homem”.
Recusou-se a ser advogado, apesar de formado em Direito (como quis o pai), e foi publicitário, jornalista, acabando por optar pela docência, que exerceu como ninguém: na ESDI, na Faculdade de Letras em Marília (SP), na PUC-SP e na FAU-USP, chegando, depois de aposentado e tendo optado por residir em Curitiba, a lecionar na Universidade Tuiuti do Paraná. Ninguém que tenha sido aluno de Décio Pignatari saiu sem acréscimos e sem perturbações no pensamento. O mestre polemizava tudo, semeava os seus paradoxos e obrigava o aluno a exercitar a mente, a reformular o pensamento, legando outros modos de leitura de complexos sígnicos, que eram alvo de abordagem em sala de aula.
De tudo o que se possa dizer da obra de Pignatari, é preciso ressaltar a importância de sua poesia, dada sua força e beleza, a inventividade notória e notável: foi um inventor ou coinventor de modos que já deitaram raízes, mas dos quais nem todos que se interessam por poesia e artes em geral se deram conta. Uma das coisas de que quase ninguém falou — e que dá até um certo conforto a quem o tinha em altíssima conta — é que ele nunca deixou nada sem resposta.
Omar Khouri
08/12/2012
fonte: https://blogs.oglobo.globo.com/prosa/post/decio-pignatari-as-antenas-da-poesia-concreta-478089.html